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Jan 10, 2013
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Dec 12, 2012
A Balada do Cárcere de Reading, Oscar Wilde



O casaco escarlate não usou, pois tinha
  De sangue e vinho o jeito;
E sangue e vinho em suas mãos havia quando
  Prisioneiro foi feito,
Deitado junto à mulher morta que ele amava
  E matara em seu leito.

Ao caminhar em meio aos Julgadores, roupa
  Cinza e gasta vestia;
Tinha um boné de críquete, e seu passo lépido
  E alegre parecia;
Mas nunca em minha vida vi alguém olhar
  Tão angustiado o dia.

Eu nunca vi alguém na vida que tivesse
  Tanta Angústia no olhar,
Ao contemplar a tenda azul que os prisioneiros
  De céu usam chamar,
E as nuvens à deriva, que iam com as velas
  Cor de prata pelo ar.

Num pavilhão ao lado, andei com outras almas
  Também a padecer,
Imaginando se seu erro fora grave
  Ou um erro qualquer,
Quando alguém sussurrou baixinho atrás de mim:
 ”O homem tem que pender.”

Cristo! As próprias paredes da prisão eu vi
  Girando a meu redor
E o céu sobre a cabeça transformou-se em elmo
  De um aço abrasador;
E, embora eu fosse alma a sofrer, já nem sequer
  Sentia a minha dor.

Sabia qual o pensamento perseguido
  Que lhe estugava o andar,
E por que demonstrava, ao ver radiante o dia,
  Tanta angústia no olhar;
O homem matara a coisa amada, e ora devia
  Com a morte pagar.

Apesar disso – escutem bem – todos os homens
  Matam a coisa amada;
Com galanteio alguns o fazem, enquanto outros
  Com face amargurada;
Os covardes o fazem com um beijo,
  Os bravos, com a espada!

Um assassina o seu amor na juventude,
  Outro, quando ancião;
Com as mãos da Luxúria este estrangula, aquele
  Empresta do Ouro a mão;
Os mais gentis usam a faca, porque frios
  Os mortos logo estão.

Este ama pouco tempo, aquele ama demais;
  Há comprar, e há vender;
Uns fazem o ato em pranto, enquanto que um suspiro
  Outros não dão sequer.
Todo homem mata a coisa amada! – Nem por isso
  Todo homem vai morrer.

Não vai morrer um dia a morte de vergonha
  Num escuro traspasso;
Nem há de Ter um pano a lhe cobrir o rosto,
  E no pescoço um laço;
Nem através do chão vai atirar os pés
  Para o vazio do espaço.

Não vai sentar-se, noite e dia no silêncio,
  Com uma guarda tesa
Que há de vigiá-lo quando tenta o pranto
  E quando tenta a reza;
Sempre a vigiá-lo, para que não roube
  Da prisão sua presa.

Não vai na aurora despertar com vultos hórridos
  Cruzando o seu umbral:
O tiritante Capelão todo de branco,
  O Xerife espectral,
E o Diretor, de negro luzidio, e a cara
  Do Juízo Final.

Nem vai vestir, com pressa comovente, as roupas
  De almas condenadas,
Enquanto um médico boçal exulta, e anota
  Suas torções crispadas,
Manuseando o relógio com um tique-taque
  De horríveis marteladas.

Nem, a arear-lhe a garganta, vai sentir aflito
  A sede que antecede
O carrasco, enluvado como um jardineiro,
  Que vem junto à parede
E ata-o com três correias, para que a garganta
  Não sinta mais a sede.

Nem curvará a cabeça para ouvir o Ofício
  Fúnebre ser lido;
Nem, enquanto o terror lhe diz dentro do peito
  Não ter ele morrido,
Com seu caixão há de cruzar, ao se mover
  Para o estrado temido.

Nem através de um teto vítreo vai fitar
  O espaço azul… lá atrás;
Nem com lábios de argila um dia vai rezar
  Para implorar a paz;
Nem, por fim, vai sentir em sua face trêmula
  O beijo de Caifás.


II

Nosso guardião passeou no pátio seis semanas
  O cinza ainda vestia.
Com seu boné de críquete e seu passo lépido
  Que alegre parecia;
Mas nunca em minha vida vi alguém olhar
  Tão angustiado o dia.

Eu nunca vi alguém na vida que tivesse
  Tanta angústia no olhar,
Ao contemplar a tenda azul que os prisioneiros
  De céu usam chamar,
E as nuvens divagantes arrastando velos
  Enredados pelo ar.

Não contorcia as mãos, como o imbecil que tenta
  Nutrir, com cego afã,
No antro do negro Desespero, essa enjeitada
  Que é a Esperança vã;
Ele apenas se punha a contemplar o sol,
  Sorvendo o ar da manhã.

Não contorcia as mãos, e nunca, fraco ou frouxo,
  Chorava em seu alinho,
Mas o ar, como se fosse anódino saudável,
  Sorvia ali, sozinho;
E, com a boca aberta, ele sorvia o sol
  Como se fosse vinho!

E, no outro pavilhão, eu e as demais almas
  Também a padecer,
Tendo esquecido se nosso erro fora grave
  Ou um erro qualquer,
Olhávamos entanto, com obtuso espanto,
  Aquele que ia pender.

E estranho era notar, passando, como lépido
  E alegre parecia;
E estranho era observar o modo como olhava
  Tão angustiado o dia;
E estranho era pensar como era grande a dívida
  Que ele pagar devia.

O olmo e o carvalho têm folhagens agradáveis,
  Primaveril tributo;
Já a forca, onde a serpente finca embaixo o dente,
  É uma árvore de luto,
E, verde ou ressequida, lá se perde a vida
  Bem antes que dê fruto.

O mundano procura algum lugar na altura
  Como o maior troféu;
Mas quem vai ao encalço do alto cadafalso
  E da corda do réu,
Para enxergar por uma gola de assassino
  A última vez o céu?

Se brilham vida e amor ao som de violinos
  É doce e bom dançar;
Dançar seguindo a pauta do alaúde ou flauta
  É ameno e singular;
Não é doce, ao revés, quando com ágeis pés
  Se dança encima do ar!

Com mórbida suspeita, em curiosa espreita,
  O olhamos dia a dia,
Cada um também assim a imaginar seu fim,
  Por que ninguém sabia
Qual rubro inferno horrível sua não visível
  Alma atormentaria.

Não mais, por fim, o morto caminhava em meio
  Aos Julgadores seus,
E eu sabia que estava na terrível jaula
  Com o banco dos réus,
E que seu rosto eu nunca mais veria neste
  Doce mundo de Deus.

Fomos dois barcos condenados na tormenta,
  Cruzando um do outro a via;
Não fizemos sinal e não dissemos nada…
  Nada a dizer havia,
Pois nosso encontro não se deu na noite santa,
  Mas no infamante dia.

Sendo dois réprobos, por muros de prisão
  Vimo-nos, pois, rodeados;
Este mundo expulsara a nós de seu regaço,
  E Deus, de seus cuidados;
Na armadilha de ferro sempre à espera do Erro
  Nós fomos apanhados.


III

No pátio o chão é duro, alto o infiltrado muro
  Aos que devem pagar;
E era ali nesse limbo, sob um céu de chumbo,
  Que ele vinha por ar,
A cada lado um Carcereiro, por temor
  De que fosse expirar.

Ou noite e dia se sentava em sua angústia,
  Com uma guarda tesa
Sempre a vigiá-lo – vendo-o erguer-se para o pranto,
  Curvar-se para a reza;
Sempre ali a vigiá-lo, para que o patíbulo
  Não roubasse da presa.

Era o Regulamento, para o Diretor,
  Sabidamente o forte;
Proclamava o Doutor que é um fato científico,
  E nada mais, a morte;
Dois folhetos por dia o Capelão deixava,
  Um piedoso suporte.

E cachimbo e cerveja, ao dia duas vezes,
  Tinha ele em tempo certo;
Jamais oferecia esconderijo ao medo
  Seu espírito aberto;
E muita vez dizia da sua alegria
  Por ter o algoz tão perto.

E carcereiro nenhum indagava porque
  Tinha esse estranho gosto:
O homem, a quem a sina sem mercê destina
  No cárcere tal posto,
Precisa colocar nos lábios um cadeado
  E mascarar o rosto.

Senão vai comover-se, e tentará ajudar
  Àquele que o consterna;
E o que pode a Piedade em Antro de Assassinos,
  Presa à mesma caverna?
Que palavra encontrar que possa confortar
  A pobre alma fraterna?

Cabisbaixos gingamos em torno ao pavilhão,
  Os Bufões em parada!
Pouco importava a nós, pois éramos a atroz,
  Satânica Brigada:
E a cabeça raspada e pés de chumbo fazem
  Alegre mascarada.

E a Brigada rasgava a corda de alcatrão
  Com as unhas sangrantes;
Ela escovava o chão, esfregava o portão,
  E as grandes cintilantes;
E lavava o assoalho, em alas no trabalho,
  Com baldes reboantes.

E inda as pedras quebrava, os sacos remendava,
  Com a broca erguia o pó;
As latas estrugia, os cânticos gania,
  Suava junto à mó;
Porém, no peito de cada homem se escondia,
  Mudo, um Terror sem dó.

E mudo, todo dia, em onda ele surgia -
  Onda de ervas coberta;
Ninguém lembrava a dura sorte que amargura
  A gente tola e a esperta,
Até passarmos nós, voltando do trabalho,
  Por uma cova aberta.

Era amarelo esgar a boca a bocejar
  E algo vivo a querer;
Para o sedento asfalto a lama suplicava
  O sangue, seu prazer;
E soubemos nessa hora que antes de outra aurora
  Alguém ia pender.

Reentramos com calma, remoendo n’alma
  A Morte, o Medo e o Nada;
Com uma sacola o algoz foi-se a arrastar os pés
  Na sombria morada;
E cada homem tremia ao rastejar de volta
  À tumba numerada.

Invadiam à noite o corredor vazio
  Contornos de Temor,
Que erravam no desterro dessa rua de ferro
  Com passos sem rumor,
E vinham, entre as barras que às estrelas velam,
  Brancas faces compor.

Ele jazia como alguém que jaz e sonha
  Em doce campo aberto;
Os carcereiros observavam-no a dormir,
  Sem compreender, por certo,
Como podia dormir tal sono de abandono
  Estando o algoz tão perto.

Os sonhos, porém, somem quando chora um homem
  Que nunca chorou antes:
E assim, sem fim vigiamos nós – nós, os velhacos,
  Os tolos, os meliantes;
E a nossas mentes veio, a rastejar, alheio
  Terror com mãos crispantes.

Ai! Que tremenda coisa a remoer a culpa
  Que é dos outros por direito!
Té o cabo envenenado a espada do Pecado
  Cravou-se em nosso peito,
E foi chumbo fundido o pranto ali vertido
  Pelo que fora feito.

Com sapatos de feltro os guardas se esgueiravam
  Nas portas com cadeado;
O seu olhar de espanto via em cada canto
  Um vulto recurvado;
E não sabiam por que se ajoelhava a orar
  Quem nunca havia orado.

A noite toda oramos, loucos pranteadores
  Do morto a nosso encargo!
As plumas no caixão eram as que agitava
  A meia-noite ao largo;
E ao sabor do Remorso era o sabor da esponja
  Com o seu vinho amargo.

Cantou o galo cinza, e então o galo rubro,
  Mas nunca vinha o dia:
Com formas tortas, de tocaia em nossos cantos,
  O Terror prosseguia;
Turbavam nossa paz todas as almas más
  Que erram na hora tardia.

Em vôo veloz, iam por nós tal como um bando
  Que em meio à neve passa;
Com torneio e torção, seu fino rigodão
  Da lua faz chalaça,
Nesse encontro espectral de andamento formal
  E repulsiva graça.

Com trejeitos se vão as sombras, mão com mão,
  Formando uma cadeia;
Sua lenta ciranda era uma sarabanda
  Em fantasmal colmeia,
Desenhando – os grotescos – doidos arabescos,
  Como o vento na areia!

Fazendo piruetas como marionetes,
  Saltitavam absortos;
Mas com flautas de Horror erguiam seus clamor
  Hediondos e retortos…
Seu canto era alongado, seu canto era gritado,
  Canto que acorda os mortos.

“Oho!” Clamavam. “Largo é o mundo! Mas que embargo
  É um membro acorrentado!
E também é cortês, sim, uma ou outra vez
  Arremessar o dado;
Na Casa da Vergonha, entanto, jamais ganha
  Quem joga com o Pecado.”

Não era apenas ar o bando a cabriolar
  Com tal gozo e prazer:
Para quem tinha a vida por grilhões contida
  E não podia correr -
Chagas de Cristo! – os seres eram coisas vivas,
  Terríveis de se ver.

Rodavam frente a frente. Rindo tolamente,
  Uns aos pares valsavam;
Outros, com requebrar próprio de um lupanar,
  Nos degraus se esgueiravam…
Com seu desdém sutil e seu olhar servil,
  A orar nos ajudavam.

Pôs-se então a gemer o vento da manhã,
  Sem à noite espantar -
A noite que tecia a teia da agonia
  No seu grande tear;
E, orando ali, bem cedo nos venceu o medo
  Da Justiça Solar.

Gemendo, o vento em volta dos chorosos muros
  Vagava; até que, enfim -
Roda de aço a girar – sentimos o arrastar
  Dos minutos sem fim.
Vento gemente! O que fizemos para termos
  Um senescal assim?

Eu vi então as negras barras (gelosia
  Com o chumbo forjada)
Movendo-se, ante a minha cama de três pranchas,
  Na parede caiada,
E soube que nalgum lugar fazia Deus
  Ser vermelha a alvorada.

Às seis horas limpamos nossas celas,
  Às sete tudo é espera…
E o vibrar e o voltear de uma asa poderosa
  Sobre o cárcere impera,
Pois o Senhor da Morte – o bafo frio e forte -
  Para matar viera.

Em real pompa não passou, nem cavalgou
  Corcel branco-lunar.
O alçapão corredio e três jardas de fio
  Bastam para enforcar:
Com a corda da vergonha veio a ação medonha
  O Arauto praticar.

Éramos como um bando em pântano tateando
  Na suja escuridão:
Não ousávamos dar vazão à nossa angústia,
  Dizer uma oração;
Algo morrera em nós, e o que morrera fora
  A Esperança… a Ilusão.

Pois a cruel Justiça do Homem Segue avante,
  Vai firme, não trepida:
Tanto ela mata quanto mata o forte
  Em sua mortal corrida…
É com tacão de ferro que ela mata o forte
  A hedionda parricida!

Grossa de sede a língua, à espera das oito horas
  Sentamo-nos à toa,
Porque o bater das oito é o sino do Destino
  Que nos amaldiçoa
E tem a seu serviço um laço corrediço
  Para a alma ruim e a boa.

Ficamos cada qual à espera do sinal
  (Nenhuma opção melhor),
Como coisas de pedra em vale solitário,
  Sem voz e sem rumor;
Mas cada coração batia lesto e presto,
  Qual louco num tambor!

Quando, em súbito choque, vem do relógio um toque
  Que fere o ar invernoso;
Então, todo o presídio deu triste gemido
  De desespero ocioso,
Igual ao som que chega aos assustados charcos
  Do covil de um leproso.

E, como muitas vezes no cristal de um sonho
  Vê-se o pior delito,
Eis na trave enganchada a corda besuntada
  De cânhamo maldito,
E eis o som da oração que o laço do carrasco
  Estrangulou num grito.

Somente eu conheci a dor que o fez berrar
  Com amargor tão forte,
E os remorsos violentos e suores sangrentos
  De sua negra sorte:
Quem vive mais do que uma vida também deve
  Morrer mais que uma morte.


IV

O Capelão não reza o culto na capela
  Quando enforcam alguém:
Tem nesse dia o coração muito enojado,
  Palor nas faces tem;
Ou aquilo que traz nos olhos estampado
  Não deve olhar ninguém.

Assim, trancaram-nos até quase meio-dia;
  E eis o sino afinal..
Nossos guardas abriram cada cela à escuta
  Com tinir de metal,
E cada homem deixou, pelos degraus de ferro,
  O Inferno pessoal.

Saímos para o doce ar do Senhor. Porém,
  Não como se soía,
Visto que o medo acizentava o rosto de um
  E o de outro embranquecia;
E nunca em minha vida vi um bando olhar
  Tão angustiado o dia.

Eu nunca vi um bando que tivesse
  Tanta angústia no olhar
Ao ver a tenda azul que de céu, no cárcere,
  Usávamos chamar,
E cada nuvem descuidada que passava
  Livre e feliz pelo ar.

Mas entre nós havia alguns que caminhavam
  Com semblante caído,
Por que sabiam que eles é que a morte mereciam,
  Tivessem o devido:
O outro matara quem vivia: eles, porém,
  Quem havia morrido.

Quem peca vez Segunda acorda uma alma morta
  Para nova aflição;
Ergue-a do pálio maculado e novamente
  A faz sangrar então;
Grandes gotas de sangue ainda a faz sangrar,
  E a faz sangrar em vão!

Quais monos ou bufões, eis-nos em feia veste
  De flechas recamada…
Íamos em silêncio, à roda, sempre à roda,
  Na lisa área asfaltada;
Íamos em silêncio, à roda, sempre à roda,
  Ninguém a dizer nada.

Íamos em silêncio, à roda, sempre à roda,
  E a Memória feroz
À mente oca invadia com atrozes coisas,
  Tal como um vento atroz.
E à nossa frente o Horror marchava e, rastejando,
  Vinha o Terror empós.

Andando acima e abaixo, os guardas dominaram
  Seu bando de animais;
Vestiam todos uniformes impecáveis,
  Trajes dominicais;
Mas no que haviam trabalhado a cal nas botas
  Mostrava bem demais.

Pois onde antes se vira escancarada cova
  Já não havia mais nada:
Apenas um espaço com areia e lama,
  Junto à muralha odiada,
E abrasadora cal, para que mortalha
  Ao homem fosse dada.

Sim, tem mortalha, esse infeliz! E tal mortalha
  Pouca gente reclama,
Pois sob um pátio de prisão descansa nu
  Para agravo da fama,
E, com grilhões de ferro em cada pé, é envolto
  Por um lençol de chama!

E, cáustica, lhe come a cal, o tempo todo,
  Osso e carne macia;
Devora os ossos quebradiços quando é noite,
  E a carne quando é dia…
Dia e noite, porém, devora o coração,
  Que a fome lhe sacia.

Por um longo triênio, mudas ou raízes
  Ninguém lá vai plantar;
Por um longo triênio, estéril, nu será
  O maldito lugar,
Que há de ficar mirando o azul de céu atônito
  Sem repressão no olhar.

Julgam que o coração de um assassino os grãos
  Plantados mancha e estanca.
Não é verdade! A terra franca do Senhor
  Não sabem quanto é franca;
E a rosa rubra desabrocha inda mais rubra,
  A branca inda mais branca.

A rosa rubra vem de sua boca, a branca
  Do coração malquisto!
Quem dizer poderia por que estranha via
  O seu querer faz Cristo,
Quando ante o papa até o bastão do peregrino
  Reflorescer foi visto?

Mas rosa, rubra ou láctea, florescer não logra
  Aqui no ar da prisão;
Aqui neste lugar, o cacom o seixo e a pedra
  São tudo o que nos dão,
Por que sabem que as flores podem nos curar
  A desesperação.

Portanto, nunca irá rosa alva ou cor-de-vinho
  Cair despetalada
Naquele estreito espaço com areia e lama,
  Junto à muralha odiada,
A anunciar que Deus quis que a vida de Seu Filho
  Por todos fosse dada.

Contudo, embora o odiado muro da prisão
  Ainda o cerque tirano,
E não possa um espírito vagar à noite
  Com grilhões a seu dano,
E não possa um espírito chorar se jaz
  Em tal solo profano,

Ele está em paz, o desgraçado… Ou logo em paz
  Há de estar a alma sua:
Nada mais o perturba; e ali, ao meio-dia,
  O Terror não o acua,
Visto que a terra úmida e sem luz em que descansa
  Não tem nem Sol nem Lua.

Foi enforcado como enforcam animais:
  Nem mesmo foi tangido
Um requiém para dar repouso a seu espírito
  Confuso e espavorido;
Mas bem depressa o retiraram, e o puseram
  Num buraco escondido.

Sem as roupas de estopa, foi arremessado
  Ao mosqueiro voraz;
E todos riram da garganta rubra e inchada,
  Do olhar fixo e tenaz…
E o desdém que gargalha eivou toda a mortalha
  Em que o culpado jaz.

Junto à cova injuriada o Capelão não veio
  De joelhos orar,
Nem a marcou com a cruz bendita que deu Cristo
  Ao pecador vulgar,
Pois era esse homem um daqueles a quem Cristo
  Desceu para salvar.

Mas tudo bem! Cumpriu apenas o destino
  Traçado pela vida;
E por um pranto estranho a urna da Compaixão,
  Trincada, será enchida,
Pois párias vão pranteá-lo, e os párias choram sempre,
  E choram sem medida.


V

Não sei se as Leis são justas ou se as Leis são falhas…
  Isso não cabe a mim.
Nós só sabemos, na prisão, que o muro é forte;
  Como sabemos, sim,
Que cada dia é um ano, um ano cujos dias
  Parecem não ter fim.

Mas isto eu sei, que toda Lei que a humanidade
  Fez para o Ser Humano –
Desde que a Abel matou Caim, e desde o início
  De nosso mundo insano -
Transforma o trigo em palha e salva só o farelo
  Com um cruel abano.

Também sei isto – e que isto seja em toda mente
  Uma noção tranqüila:
Tijolos de vergonha é o que usam na prisão
  Quando vão construí-la,
E grades põem para Jesus não ver como o homem
  Os seus irmãos mutila.

Com barras o homem borra a graciosa lua
  E cega o sol feraz:
E conservar coberto aquele Inferno é certo,
  Pois lá dentro se faz
Algo que nem Filho de Deus nem Filho do Homem
  Devem olhar jamais!

Como ervas venenosas as ações mais vis
  Brotam no ar da prisão;
Ali, somente as coisas que são boas no Homem
  Secarão, murcharão…
Guarda a porta pesada a Angústia; e o Carcereiro
  É a Desesperação.

Lá a criança assustada fica à míngua até
  Que chore noite e dia;
Lá se fustiga o fraco, e se flagela o tolo,
  E ao velho se injuria;
Lá muitos endoidecem, todos se embrutecem,
  Ninguém se pronuncia.

A nossa pequenina cela é uma latrina
  De treva e sujidade.
E o bafo azedo e forte de uma viva Morte
  Sufoca toda grade;
Resta a Luxúria só – e tudo mais é pó
  Na mó da Humanidade.

A água salobre que bebemos traz consigo
  Uma nojenta lama,
E o pão amargo que eles pesam na balança
  Tem greda em cada grama,
E o Sono, com olhar selvagem, não se deita,
  Mas para o Tempo clama.

Porém, se a magra Fome e a Sede estão qual áspide
  E víbora em porfia,
Pouco importa a comida na prisão servida,
  Pois o que mata e esfria
É que de noite o coração se torna a pedra
  Que se ergue quando é dia.

Tendo no peito a meia-noite, e em sua cela
  Crepúsculo eternal,
Cada homem rasga a corda ou gira a manivela
  No Inferno pessoal,
Quando o silêncio é mais terrível do que o som
  De um sino de metal.

E jamais se aproxima com palavras doces
  A doce humana voz;
E o olho a vigiar constantemente junto à porta
  É impiedoso e feroz…
E, nessa alheação, apodrecendo vão
  Corpo e alma em todos nós.

E a corrente da Vida assim enferrujamos
  Na torpe solidão:
E alguns homens praguejam, e outros homens choram
  Ou nem gemidos dão…
Mas as eternas Leis de Deus rompem bondosas
  O pétreo coração.

E cada coração no cárcere partido –
  Na cela ou onde for -
É como aquele frasco roto que entregou
  Seu tesouro ao Senhor,
E encheu o lar do impuro lázaro com nardo
  Do mais alto valor.

Feliz o coração partido: pode a paz
  Do perdão conquistar!
Senão, como o homem vai fazer reto o seu plano
  E do Erro se limpar?
Como pode, a não ser por coração partido,
  O Senhor Cristo entrar?

E o de garganta rubra e inchada, o de olhar fixo,
  Aguarda enternecido
As santas mãos que ao paraíso o bom ladrão
  Haviam conduzido;
E Deus jamais desprezará um coração
  Contrito e arrependido.

Três semanas de vida deu-lhe o homem da Lei
  Com a rubra casaca,
Três pequenas semanas, para curar na alma
  O mal que à alma lhe ataca,
Limpar cada sinal de sangue sobre a mão
  Que segurou a faca.

E ele lavou com lágrimas de sangue a mão
  Que guiou o cutelo,
Pois só o sangue limpa o sangue, e apenas lágrimas
  Livram do pesadelo…
E a nódoa carmesim que fora de Caim
  De Cristo é o níveo selo.


VI

No cárcere de Reading junto a Reading Town
  Há um fosso de má fama,
E nele jaz um desgraçado a quem devoram
  Cruéis dentes de chama.
Jaz num sudário ardente, e o mísero sepulcro
  Seu nome não proclama.

E, até que Cristo chame os mortos, ali possa
  Em silêncio jazer…
Não é preciso dar suspiros ocos, nem
  Tolo pranto verter:
Aquele homem matara a sua coisa amada,
  E tinha que morrer.

Apesar disso – escutem bem – todos os homens
  Matam a coisa amada;
Com galanteio alguns o fazem, enquanto outros
  Com face amargurada;
Os covardes o fazem com um beijo,
  Os bravos, com a espada!

5 months ago
Dec 6, 2012
the last act.
5 months ago
Dec 4, 2012

so he swallowed all his tears. tasting ash, bile and pride at the back of his throat. and thought “that might have hurt me once, for what is dead may never die. but rises again, harder and stronger”.

5 months ago
Dec 4, 2012
5 months ago
Dec 4, 2012
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Dec 4, 2012
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Nov 28, 2012

“I wasn’t scared.” the boy insisted. “The smell made me sick. Didn’t it make you sick? How could you bear it. Uncle, ser?”

I have smelled my own hand rotting, when Vargo Hoat made me wear it for a pendant. “A man can bear most anything, if he must,” Jaime told his son. I have smelled a man roasting, as King Aerys cooked him in his own armor. “The world is full of horrors, Tommen. You can fight them, or laugh at them, or look without seeing … go away inside.”

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Nov 28, 2012
5 months ago
Nov 28, 2012
5 months ago
Nov 28, 2012
5 months ago
Nov 27, 2012

As manhãs são todas iguais em seu dissabor.

Azuis-acinzentadas, metálicas. O sol só é visível quando já alto, o barulho, reduzido a um murmúrio, é baixo mas constante. O único alento é que a poluição não consegue escalar com todas sua ênfase a vertiginosa altura de tantos andares, e isso, pelo menos, é uma benção.

O ilustrador é uma pessoa triste, solitária. Alguém que já amou de todo o coração as mesmas manhãs que agora parecem tão esmaecidas e opacas. Depois de meio século, enfim, vive uma vida regrada, tendo como única companhia um escapulário de prata já enegrecida pela idade. Possui um notório mau humor nestas primeiras horas do dia, como se ressentido pela mágica das manhãs que o tempo lhe roubou.  Sua mente nunca esteve tão afiada, mas o corpo definha numa velocidade trágica.

Pega o telefone e disca, limpa a garganta enquanto os tons martelam suavemente em seu ouvido. O diálogo é rapido mas satisfatório, e na tentativa de recolocar o aparelho no gancho ele derruba um copo. Porta-retratos nunca combinaram com sua estante.

5 months ago
Nov 27, 2012